sexta-feira, 15 de julho de 2011

Movimento Transition Towns – A transição continua…

No sábado do dia 02 de julho, aconteceu o 3o encontro do grupo iniciador do movimento Transition Towns (Cidades em Transição) em Fortaleza. A reunião aconteceu na praia da Abreulândia, que fica próxima ao bairro da Sabiaguaba. Após o curso realizado em maio desse ano, na ONG Cura do Planeta, um grupo grande de interessados em fazer acontecer o movimento vem se reunindo para realizar vivências junto às comunidades e discutir os próximos passos rumo à transiçao.

A primeira reunião aconteceu em 04 de junho de 2011, às vésperas do Dia Nacional do Meio Ambiente, aliando-se a programação proposta pelo Grupo de Consumidores Responsáveis do Benfica. Após uma conversa fluida e produtiva na casa do Zé Albano, seguiram-se atividades envolvendo o plantio de nativas de manguezal – com direito até a banho com argila terapêutica -, construção de canteiros na comunidade, e fechando no “Cine Duna”, com a mostra do filme “O Homem que Plantava Árvores”, exibido nas dunas da Sabiaguaba, no cair da tarde. Segundo João Lucas Castanha, “o melhor cinema da cidade”. E assim se deu o pontapé inicial da transição.


O segundo encontro realizou-se na tarde do dia 11/06, na Gereberaba, mais precisamente no terreiro da Dona Maria e Seu Valdemar, onde foi feito um belo trabalho com a comunidade, com oficinas de transformação de lixo em arte, e com o plantio e tratamento de mudas.

Assim, crianças viram garrafas pet virarem lindas borboletas, peixes, carrinhos, tartarugas, jarrinhos e lâmpadas, “que ascendiam nossas idéias de como muito pode ser feito sem precisar ir pro lixo”, como bem disse Marisol Albano, companheira de transição. E completou: “a tarde foi caindo deixando a paisagem ainda mais linda, e os corações cada vez mais felizes e sincronizados batendo juntos de alegria por sentir tanta sintonia de luz, de cura, de amor e amizade, anunciando essa linda rede que se forma, de pessoas fortes - guerreiros na luta pela transformação desse pedacinho especial da cidade.”


Na Abreulândia, o encontro foi na sede da Associação Náutica Desportiva da Abreulândia – ANDA, onde houve um debate sobre os esportes náuticos e o meio ambiente, sendo destacado a potencialidade que aquela região tem para as práticas do surf, kite surf e stand up paddle. O adepto dos esportes Flávio, contou a interessante história do Stand Up, e mostrou vídeos e imagens da prática do esporte no local, descortinando lugares paradisíacos nas nossas redondezas, completamente desconhecidos pela grande maioria dos fortalezenses.


Após o debate houve uma oficina de produção de sabão ecológico, ministrada pelo companheiro JB ABREU. O sabão é feito com o óleo de cozinha depois de usado, que atualmente é despejado no esgoto, que por sua vez desemboca no mar, gerando impacto ambiental de considerável relevância naquele verdadeiro mosaico de unidades de conservação.


A criação de uma fábrica de sabão ecológico é um projeto de desenvolvimento local, que promoverá geração de emprego e renda pra população, ao passo que contribuirá para a preservação do meio ambiente, evitando que todo o óleo produzido pelas barracas de praia seja despejado na natureza. Os materiais utilizados para a produção do sabão atualmente são improvisados e em pouca quantidade, sendo portanto muito bem vindos apoios financeiros, doações de aparelhos e demais utencílios necessários no processo, que é bastante simples.


Findando o tarde, fizemos um círculo de conversa sobre a necessidade de se trabalhar a Linha do Tempo contruída na ocasião do curso, sendo enfatizado que o grupo está sedento por ações mais ousadas em direção à transição, e precisando estabelecer os principais pontos e estratégias para alcançar os objetivos traçados. Para isso, foi marcado o próximo encontro para o dia 23 de julho, onde será pontuado o que pode ser iniciado a partir de agora, liberando a evidente energia de ação deflagrada nos primeiros dez anos da Linha do Tempo.


Ao mesmo tempo em que se revelou a ânsia de de se pôr em prática ações de maior peso e amplitude, percebemos que o processo estava acontecendo de forma natural e gradativa, considerando que este era apenas o terceiro encontro do grupo, e que é igualmente importante esse passeio pelas comunidades, o reconhecimento de suas características, dificuldades e potencialidades, e o contato com a sua gente.



O encontro findou com os últimos raios de sol, em uma grande roda de esperança e aconchego entre todos que se faziam presentes, momento em que houve a doação de duas pranchas e alguns coletes de surf para a ANDA, que foram entregues simbolicamente para a atleta profissional Nayara Silva, moradora da Abreulandia, campeã brasileira de surf e orgulho dos surfistas da comunidade.

As pranchas foram doadas em homenagem ao Magão, um guerreiro de luz que foi fundador e instrutor da escolinha de surf “Magic Surf” e era também membro da ANDA, quando fez a sua partida inesperada em março desse ano. A ida do Magão deixou muita tristeza e vazio, mas também a importante missão de dar continuidade ao seu trabalho e ajudar na concretização do seu sonho que agora também é nosso: promover o desenvolvimento do esporte na região e ver a comunidade, ONG’s, sociedade civil, poder público e universidades se unirem em prol do crescimento sustentável daquele pequeno paraíso, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Todos são bem-vindos nessa luta de paz.





sexta-feira, 3 de junho de 2011

Vamos falar de liberdade.

Garopaba, SC, 30 de maio de 2011


Acordo nessa segunda-feira depois de um longo sonho com uma amiga de muitos anos. Passei boa parte da noite dançando e me aventurando com Cris Cordeiro e toda sua família. Depois do café lí um artigo do livro que Luciana nos presenteou: Gaian Economics Living Well within Planetary Limits. A autora do artigo é Vandana Shiva uma mulher indiana, forte e ativista. Justo quando inicio uma nova semana; nesse mesmo mundo onde Belo Monte será construída inundando as terras de mais de 40.000 índios do Xingú e o novo Código Florestal é aprovado com uma massiva votação dos nossos ilustríssimos representantes políticos, recebo um pouco de energia otimista para continuar a cultivar esperança ao meu redor.
Sim. Sinto revolta e muitas vezes tristeza diante de tanta incoerência do sistema que rege as teias da nossa realidade coletiva. Para mim quase nada faz sentido nesse conjunto de crenças, leis e necessidades que insistem em me empurrar como sendo a Vida, e que portanto devo aceitar resignada que: é assim mesmo.
Poderia escrever horas sobre o que me parece absolutamente errado... embora ao meu ver tudo não passaria de uma série de reações a uma única ação: a forma como compreendemos a Vida.

O que está errado é o fato de que a vida não está sendo valorizada. As vidas dos gramados, dos humanos, dos animais, das flores – todas são valiosas. Essa é a verdade universal. Vocês têm direito à própria sexualidade, a dizerem o que sentem, a seguirem a própria verdade e a não obedecerem às regras tolas de alguém”.

A mensagem é retirada de outro livro que também estou lendo agora “Terra: chaves Pleiadianas para a Bliblioteca Viva” esse foi presente da amiga flor Helena. Um complementa o outro nessa segunda-feira de sol encoberto por nuvens e vento frio. Vou através deles tecendo minha trama pessoal dentro da rede maior que nos conecta a tudo que possuiVida nesse planeta.
Pelas palavras de Vandana Shiva acesso o conceito de Earth Democracy (Democracia da Terra) que nos coloca enquanto membros de uma Família Terrestre da qual pertencem todos os seres vivos como um mosaico culturalmente diversificado. Diversidade significa liberdade. Toda e qualquer forma de monocultura: uma raça, uma religião, uma visão de mundo, indicam a exclusão da nossa liberdade. Nesse sentido animais, vegetais e minerais assumem a posição de membros da mesma família a qual pertencemos, merecendo nosso respeito, liberdade e nossa responsabilidade. E essa é realmente uma forma completamente diferente de compreender a Vida.
Atualmente vivemos um paradigma onde temos direitos sem ter responsabilidades e responsabilidades sem ter direitos. Corporações, o Estado e políticos estão aí para lutar firmemente pela manutenção desse sistema atuando através das normas, do capital e das leis... mas e se acontece de a gente querer mudar? Querer criar algo totalmente novo? Experimentar um novo paradigma para ver quais serão as novas possibilidades? E não saber por onde começar...
A gente pode ficar com medo, pode se acomodar, pode querer nem ligar e continuar a vida exatamente como está ou querer que alguém diga o devemos fazer agora. Qual é exatamente o rumo certo? Pode ser assustador para muita gente descobrir que vai ter que agir primeiro sozinho se quiser ver alguma mudança acontecer. Tudo começa dentro de nós mesmos, no quintal das nossas casas, no que pensamos, no rumo que damos à nossas vidas... e aí quem sempre coloca sua vida na mão de alguém para ser governada, esperando pelas leis e pelos decretos fica sem saber como exercer sua liberdade, por que perdeu a prática de exercer o pensamento livre... fica com medo de falar o que pensa e de viver o que acredita e assim perde sua liberdade dentro da segurança da normalidade que unifica o pensamento, massifica a cultura e pasteuriza a existência.
Sei que estou agora absorvendo informações polêmicas e novas teorias que estão a borbulhar dentro de mim mesma, mas de certa forma não temo a ebulição. Nada disso chegou até mim a toa. Eu busquei consciente. E agora recebo. Então deixa a corrente fluir, deixa ser livre, o melhor é não saber mesmo no que vai dar... por que dos caminhos conhecidos eu já sei bem o que não quero.


El Roque Nublo, Islas Canárias, España

terça-feira, 17 de maio de 2011

A Economia, As Pessoas e o Meio Ambiente, artigo de Marcus Eduardo de Oliveira

Fonte: Portal EcoDebate, 12/05/2011

Indiscutivelmente, não há como refutar uma assertiva: crescer economicamente é usar o meio ambiente e, em decorrência desse atual “uso”, crescer significa, grosso modo, “destruir”. Dessa forma, essa premissa pode ser assim reescrita: “Consome-se, logo, destrói-se”. “Produz-se mais, logo, agride-se mais”.

Pois bem. Numa sociedade centrada no uso e na força do dinheiro como elemento potencializador do consumo, outra premissa tende, por primazia, a se estabelecer: “o consumo consome o consumidor”, como diz acertadamente Frei Betto em “A Mosca Azul”.




No entanto, paira diante disso uma crucial e instigadora pergunta: como produzir para atender a desejos de consumo cada vez mais ilimitados se há visivelmente limites e pré-condições impostas e conhecidas pela natureza que impossibilitam, sobremaneira, esse atendimento em escala crescente?

Como há desejo de prontamente atender as necessidades mercadológicas impostas pelo apelo consumista, por sinal cada vez mais voraz, deve-se ter em conta aquilo que Clóvis Cavalcanti chama a atenção com bastante veemência: “mais economia implica menos ambiente”.

Na esteira dessa análise, frequentemente temos visto a incidência de um equívoco conceitual que impera no seio da economia tradicional insistindo em não diferenciar crescimento (aumento – quantitativo) de desenvolvimento (melhoria – qualitativa).

De um lado têm-se a receita tradicional da macroeconomia, qual seja: buscar o crescimento econômico ilimitado. Do outro, têm-se a questão ecológica que atesta a não existência de recursos naturais em quantidades disponíveis para a ocorrência desse tal crescimento.

Conquanto, o que precisa ficar esclarecido é que uma maior produção econômica irá derrubar mais florestas, irá agredir o solo, usar mais água, o ar, a energia, pondo em risco a estabilidade do clima que, por sinal, já vem capenga dada a agressão constante do processo produtivo sobre as coisas da natureza.


Outrossim, crescer além da conta significa aumentar o intercâmbio global de produtos, o que resulta enfraquecer substancialmente o mercado interno em nome do exclusivo atendimento ao modelo de globalização que recomenda como “receita de sucesso” que tenhamos sempre a geladeira repleta de produtos importados.

Ora, é simplesmente insano fazer com que um ketchup, por exemplo, vindo dos Estados Unidos “viaje”, às vezes, mais de 10 mil quilômetros para chegar ao mercado brasileiro quando poderia ser produzido domesticamente e “viajar” menos de 1.000 km para chegar às mesas dos brasileiros. Há um gasto energético intenso envolto nessa “viagem” do ketchup de fora para cá que é altamente agressivo sobre o meio ambiente e potencialmente gerador de CO2. Tomemos outro exemplo: a fruta nectarina produzida em Badajoz, na Espanha, “viaja” quase 400 quilômetros de caminhão queimando combustível até chegar a Portugal, no Porto de Lisboa. De lá vem ao Brasil, chegando ao Porto de Santos vinte dias depois. Imaginemos o quanto não foi gasto em termos energéticos nesse processo.


Isso é inadmissível numa sociedade que já consome em energia e recursos o equivalente a um planeta e 1/3. Acreditar nesse modelo é continuar jogando terra sobre a capacidade de se obter desenvolvimento, pois isso está longe de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Portanto, diante disso há outra assertiva que não pode ser refutada: se a economia desde seus estudos iniciais emergidos da Filosofia Moral tem como fito precípuo promover o bem-estar das pessoas é impossível aceitar pacificamente que os modelos econômicos continuem ignorando dois elementos fundamentais, as pessoas e o meio ambiente.

Definitivamente, a economia (ciência) só possui sentido de existência se, e somente se, incorporar em suas análises as pessoas e passar, de forma definitiva, a tratar com relevância a questão ambiental, visto que depende dessa para tudo. Historicamente, tanto as pessoas como a questão ambiental tem sido relegadas a um segundo plano, numa visão míope da economia que se sobrepuja arrogantemente sobre o meio ambiente, não reconhecendo ser apenas um subsistema desse meio ambiente. Não incorporando em seus modelos e análises as pessoas e o ecológico, a ciência econômica tende a continuar como está: apenas respondendo pelo crescimento e fechando os olhos para o crucial, o desenvolvimento sócio-ambiental-humano. Não trilhando os caminhos que conduzem a um sistema econômico mais fraterno e ambientalmente saudável, fica a economia cada vez mais longe de seu pressuposto elementar nascido com o intuito de proporcionar melhoria de vida a todos.




Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, em São Paulo. É articulista do Portal EcoDebate, do site “O Economista”, da Agência Zwela de Notícias (Angola) e do jornal Diário Liberdade (Galiza, Europa).
Contatos:
e-mail – prof.marcuseduardo@bol.com.br
Twitter – http://twitter.com/marcuseduoliv


terça-feira, 10 de maio de 2011

Movimento Transition Towns chega à Fortaleza


Movimento Transition Towns chega à Fortaleza

Estimular habilidades necessárias para se iniciar um processo de transição que vise à sustentabilidade dos meios urbanos a partir da transformação de cidades insustentáveis, de moradores demasiados consumistas, em cidades menos dependentes do petróleo, com pessoas mais conscientes e interligadas à natureza. É com este objetivo que Fortaleza recebe, nos dias 14 e 15 de maio, o treinamento Transition Towns. Iniciativa da Secretaria de Meio Ambiente e Controle Urbano da Prefeitura Municipal de Fortaleza - SEMAM, em parceria com as ONG´s Maloca Sustentável e Cura do Planeta e com o Instituto Nordeste Cidadania – Inec, o treinamento será facilitado pela educadora e designer em sustentabilidade May East – também Diretora da Gaia Education e integrante da rede internacional de treinadores do Movimento Cidades em Transição - e pelo arquiteto e fundador do Instituto Centro de Referência Integração e Sustentabilidade – CRIS, Marcelo Todescan.

Com a idéia de unir e mobilizar pessoas de determinada região, seja moradores de uma rua, de um bairro e até de uma cidade para discutir problemas do meio urbano nos segmentos sociais, ambientais, econômicos e culturais e propor soluções resilientes, o movimento chega a Fortaleza no intuito de ter a sua metodologia aplicada na primeira área de proteção ambiental (APA) administrada pelo município de Fortaleza, a Sabiaguaba.

De acordo com Luciana Campos, Presidente da Maloca Sustentável, “A filosofia e a metodologia do Transition Towns está em consonância com as diretrizes apontadas pelo Plano de Manejo das Unidades de Conservação da Sabiaguaba. Assim, o objetivo do treinamento é capacitar agentes e parceiros para atuarem de forma integrada na implantação do primeiro bairro ecológico de Fortaleza, a Sabiaguaba”.

Para o Coordenador de Políticas Ambientais da Secretaria Municipal de Fortaleza – Semam, Rafael Tomyama, “para que a cidade cumpra seu papel sócio-ambiental de forma adequada, é necessário um planejamento urbano de longo prazo onde se aliem poderes públicos, empresas, universidades e sociedade em geral, por uma vida realmente sustentável. O Movimento Transition Towns (Cidades em Transição) nos leva a refletir e nos mobiliza para a ação de realizar este sonho de cidade sustentável na perspectiva da totalidade, do (re)encontro das pessoas consigo mesmas e com a natureza, da qual somos parte inseparável”.

As cidades em transição crescem cada vez mais no Brasil. Cidades como Brasilândia, Boiçucanga, Granja Viana, João Pessoa, Alto Paraíso de Goiás, Laranjeiras, Cosme Velho, Alphaville, Porto Alegre, Grajaú, Curitiba e Botafogo já entraram no movimento. Agora é a vez de Fortaleza!

O Movimento Transition Towns

O movimento das Cidades em Transição, ou Transition Towns, foi criado pelo inglês Rob Hopkins com o objetivo de transformar as cidades em modelos sustentáveis, menos dependentes do petróleo, mais integradas à natureza e mais resistentes a crises externas, tanto econômicas quanto ecológicas. Hoje o movimento se faz presente em 34 países do mundo. Já são 360 cidades oficiais e mais de 373 iniciativas preparando-se para a Transição. As iniciativas de transição criam um processo promissor que engaja pessoas, comunidades, instituições e cidades para, juntos, pensarem e implementarem as ações necessárias de curto e longo prazo para enfrentar duas questões emergentes que já começam a se fazer sentir: as mudanças climáticas e o pico do petróleo.

Os facilitadores do Treinamento em Fortaleza

Marcelo Todescan
Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie,com 20 anos de experiência. Possui cursos de extensão universitária em Direito Ambiental, nas Faculdades Metropolitanas Unidas, e treinamento em Ecovilas, Permacultura, Bio-construção, Energia Renováveis, Saúde nas Ecovilas e Ecologia Profunda. Membro da Ecovillage Network of the Américas – Brasil, Gaia Education e Transition Towns. Sócio do escritório Todescan Siciliano Arquitetura, membro e Fundador do Instituto CRIS Referencia Integração Sustentabilidade. Membro Fundador da revista GEA – Global Ecologia Arquitetura, e membro, articulador e treinador oficial da rede Transition Towns Brasil.
May East
Educadora e designer para Sustentabilidade. Trabalha internacionalmente com o movimento global das ecovilas e como consultora de assentamentos humanos sustentáveis e cidades em transição. Mora há 19 anos na Ecovila Findhorn da Escócia, onde é Diretora de Relações Internacionais entre Findhorn Findhorn e Global Ecovillage Network junto a ONU. É Diretora do Programa Gaia Education, um consórcio internacional de designers de sustentabilidade presente em 23 países. Membra do CEO do CIFAL Findhorn, Centro de Treinamneto Associado a UNITAR- United Nations Institute of Training and Research, que oferece treinamentos em design ecológico para urbanistas e autoridades locais. May faz parte da rede internacional de treinadores das Cidades em Transição.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sementes sequestradas – É necessário apostar em outro modelo de agricultura e alimentação, artigo de Esther Viva


Quem ouviu falar alguma vez do tomate lâmpada, da berinjela branca ou da alface língua de boi? Difícil. Trata-se de variedades locais e tradicionais que ficaram à margem dos canais habituais de produção, distribuição e consumo de alimentos. Variedades em perigo de extinção.


A nossa alimentação atual depende de algumas poucas variedades agrícolas e de gado. Apenas cinco variedades de arroz proporcionam 95% das colheitas nos maiores países produtores e 96% das vacas de ordenha no Estado Espanhol pertence a uma só raça, a frisona-holstein, a mais comum a nível mundial em produção leiteira. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), 75% das variedades agrícolas desapareceram ao longo do último século.

Mas esta perda de agrodiversidade não tem somente consequências ecológicas e culturais, mas implica, também, no desaparecimento de sabores, de princípios nutritivos e de conhecimentos gastronômicos, e ameaça a nossa segurança alimentar ao depender de algumas poucas espécies de cultivo e de gado. Ao longo dos séculos, o saber camponês foi melhorando as variedades, adaptando-as às diversas condições agroecológicas a partir de práticas tradicionais, como a seleção de sementes e cruzamentos para desenvolver cultivos.

As variedades atuais, em contrapartida, dependem do uso intensivo de produtos agrotóxicos, pesticidas e adubos químicos, com um forte impacto ambiental e que são mais vulneráveis às secas, a doenças e pragas. A indústria melhorou as sementes para adaptá-las aos interesses de um mercado globalizado, deixando em segundo lugar as nossas necessidades alimentares e nutritivas com variedades saturadas de químicos e tóxicos, como aborda o documentário ”Notre poison quotidien” (O nosso veneno diário) de Marie-Monique Robin, estreado recentemente na França.


Até cem anos atrás, milhares de variedades de milho, arroz, abóbora, tomate, batata… abundavam em comunidades camponesas. Ao longo de 12.000 anos de agricultura, manipularam cerca de 7.000 espécies de plantas e vários milhares de animais para a alimentação. Mas hoje, de acordo com dados da Convenção sobre a Diversidade Biológica, apenas quinze variedades de cultivos e oito de animais representam 90% da nossa alimentação.

A agricultura industrial e intensiva, a partir da Revolução Verde, nos anos 60, apostou em alguns poucos cultivos comerciais, variedades uniformes, com uma base genética estreita e adaptadas às necessidades do mercado (colheitas com máquinas pesadas, preservação artificial e transporte de longas distâncias, uniformização do sabor e da aparência). Políticas que impuseram sementes industriais com o pretexto de aumentar a sua rentabilidade e produção, desacreditando as sementes camponesas e privatizando o seu uso.

Desta maneira, e com o passar do tempo, foram emitidas patentes sobre uma grande diversidade de sementes, plantas, animais, etc., corroendo o direito camponês de manter as suas próprias sementes e ameaçando meios de subsistência e tradições. Através destes sistemas, as empresas se apropriaram de organismos vivos e, através, da assinatura de contratos, o campesinato passou a depender da compra anual de sementes, sem possibilidade de poder guardá-las após a colheita, plantá-las e/ou vendê-las na temporada seguinte. As sementes, que representavam um bem comum, patrimônio da humanidade, foram privatizadas, patenteadas e, finalmente, “sequestradas”.



A generalização de variedades híbridas – que não podem ser reproduzidas – e os transgênicos foram outros dos mecanismos utilizados para controlar a sua comercialização. Estas variedades contaminam as sementes tradicionais, condenando-as à extinção e impondo um modelo dependente da agro-indústria. O mercado mundial de sementes está extremamente monopolizado e apenas dez empresas controlam 70% desse mercado.

Como indica a Via Campesina – maior rede internacional de organizações camponesas – “somos vítimas de uma guerra pelo controle das sementes. Nossas agriculturas estão ameaçadas por indústrias que tentam controlar nossas sementes por todos os meios possíveis. O resultado desta guerra será determinante para o futuro da humanidade, porque das sementes dependemos todos e todas para nossa alimentação diária”.

Do dia 14 ao 18 de Março, foi realizada a quarta sessão do Tratado Internacional sobre os Recursos Fitogenéticos para a Alimentação e a Agricultura, em Bali. Um tratado fortemente criticado por movimentos sociais como a Via Campesina, considerando que reconhece e legitima a propriedade industrial sobre as sementes. Embora o seu conteúdo reconheça o direito dos camponeses à venda, à troca e à semeadura, o Tratado, de acordo com os seus denunciantes, não impõe estes direitos e claudica perante os interesses industriais.

Hoje, mais do que nunca, num contexto de crise alimentar, é necessário apostar em outro modelo de agricultura e alimentação que se baseia nos princípios da soberania alimentar e na agroecologia, a serviço das comunidades e nas mãos do campesinato local. Manter, recuperar e trocar as sementes camponesas é um ato de desobediência e responsabilidade, a favor da vida, da dignidade e da cultura.




Por: Esther Vivas, colaboradora internacional do Portal EcoDebate, é autora do livro “Do campo ao prato. Os circuitos de produção e distribuição de alimentos”.

Fonte: Artigo publicado em Portal Ecodebate, em 15/04/2011.
** Traduzido ao português por Tárzia Medeiros.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Bolívia cria Lei da Mãe Terra

País dá exemplo ao mundo

A Bolívia está em vias da aprovar a primeira legislação mundial dando à natureza direitos iguais aos dos humanos. A Lei da Mãe Terra, que conta com apoio de políticos e grupos sociais, é uma enorme redefinição de direitos. Ela qualifica os ricos depósitos minerais do país como "bençãos", e se espera que promova uma mudança importante na conservação e em medidas sociais para a redução da poluição e controle da indústria, em um país que tem sido há anos destruído por conta de seus recursos, informa o Celsias.

Na Conferência do Clima de Cancun, a Bolívia destoou da maioria quando declarou que todo o processo era uma farsa, e que países em desenvolvimento não apenas estavam carregando a cruz da mudança do clima como, com novas medidas, teriam de cortar também mais suas emissões.

A Lei da Mãe Terra vai estabelcer 11 direitos para a natureza, incluindo o direito à vida, o direito da continuação de ciclos e processos vitais livres de alteração humana, o direito a água e ar limpos, o direito ao equilíbrio, e o direito de não ter estruturas celulares modificadas ou alteradas geneticamente. Ela também vai assegurar o direito de o país "não ser afetado por megaestruturas e projetos de desenvolvimento que afetem o equilíbrio de ecossistemas e as comunidades locais".

Segundo o vice-presidente Alvaro García Linera. "ela estabelece uma nova relação entre homem e natureza. A harmonia que tem de ser preservada como garantia de sua regeneração. A terra é a mãe de todos". O presidente Evo Morales é o primeiro indígena americano a ocupar tal cargo, e tem sido um crítico veemente de países industrializados que não estão dispostos a manter o aquecimento da temperatura em um grau. É compreensível, já que o grau de aquecimento, que poderia chegar de 3.5 a 4 graus centígrados, dadas tendências atuais, significaria a desertifição de grande parte da Bolívia.

Esta mudança significa a ressurgência da visão de um mundo indígena andino, que coloca a deusa da Terra e do ambiente, Pachamama, no centro de toda a vida. Esta visão considera iguais os direitos humanos e de todas as outras entidades. A Bolivia sofre há tempos sérios problema ambientais com a mineração de alumínio, prata, ouro e outras matérias primas.

O ministro do exterior David Choquehuanca disse que o respeito tradicional dos índios por Pachamama é vital para impedir a mudança do clima. "Nossos antepassados nos ensinaram que pertencemos a uma grande família de plantas e animais. Nós, povos indígenas, podemos com nossos valores contribuir com a solução das crises energética, climática e alimentar". Segundo a filosofia indígena, Pachamama é "sagrada, fértil e a fonte da vida que alimenta e cuida de todos os seres viventes em seu ventre."



Fonte: Planeta Sustentável